segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Ensaio sobre o óbvio



Esse post poderia se chamar Ensaio sobre a cegueira, mas esse título já tem dono.
A cobertura do 2º turno nos canais de TV aberta ontem foi recheada de mesas redondas com políticos, jornalistas e os famosos especialistas. As perguntas e respostas eram dignas de um vestiário após o término de uma partida de futebol. As conclusões então eram uma aula sobre a arte de sofismar.
Roberto Macedo (economista) ganhou uma indicação ao prêmio “conclusão da noite”, com essa:
“Lula aprendeu uma grande lição sobre transferência de votos”.
A idéia está sepultada há décadas, mas o professor acha que um cara que perdeu três eleições e viveu mais quatro delas é que aprendeu uma grande lição. De qualquer forma, transferência de votos tinha que estar no rol de assuntos.

A pergunta da noite vai para o Bóris Casoy: Por que Marta perdeu em São Paulo (como se fosse uma tremenda surpresa)? A meu ver, os especialistas tinham algumas opções:
a) Porque o Kassab teve mais votos.
b) Porque, conforme indicaram as pesquisas, dificilmente os eleitores do Geraldo e do Maluf votariam nela.
c) Porque São Paulo é uma cidade conservadora. Vide, por exemplo, as eleições presidenciais de 2006 onde o Lula perdeu para o Geraldo por larga margem nos dois turnos.
d) Porque novamente fez uma campanha medíocre.
e) Porque o acordo com o PMDB deu ao Kassab o tempo de rádio e televisão que ele necessitava para vender a sua imagem no 1º turno.
Demetrio Magnoli (eu também mereço por ficar vendo essas figuras) responde:
“Porque ela é uma candidata arrogante”.
A próxima pergunta do script: Quem foi o grande vencedor: o governo ou a oposição ? Típica do campeonato brasileiro, do tipo “quem foi o mais beneficiado da rodada”.
Fiz o quadro abaixo com o total de prefeituras por ano, somando os partidos mais alinhados. Separei o PMDB, porque considero ingênua qualquer tentativa de alinhá-lo com um lado ou outro. Caso alguém queira brigar com os números:

2008

2004

2000

DEM+PSDB+PPS

1413

1980

2187

PT+PSB+PCdoB

907

610

337

PMDB

1204

1065

1260


Pelo que já expliquei acima, não vou nem comentar a outra pergunta do script (O que podemos projetar para 2010?), pois aí as respostas são para lá de risíveis.

domingo, 26 de outubro de 2008

Eu gosto de eleição


Todo dia de votação, quando saio de casa para ir votar, sinto uma sensação boa. É uma sensação que algo importante está para acontecer e que vou fazer parte dele. Gosto também de ver pessoas que não escondem seus candidatos de preferência, mostrando bandeiras, camisetas ou adesivos nos carros. Lembro que no 1º turno vi um casal vestindo camisetas do Maluf. Pensei: não é o fim da picada, alguém fazer campanha para o Maluf em pleno 2008 ? Claro que é, mas é bom que eles possam fazer isso sem ser hostilizados por ninguém. É uma coisa tipo aquela frase do Voltaire, que parece que ele nunca disse, mas pelo jeito pensou.
Penso que comecei a gostar mais de eleições após trabalhar como mesário em algumas delas. Não é só o fato de a urna ser eletrônica que torna tudo fascinante, mas todos os processos que existem de controle e de apuração. Ainda é viva a memória de 2002, depois de ter assistido àquela novela da eleição americana dois anos antes, onde pude saber o resultado da eleição no dia seguinte. Isso num país continental como o nosso, onde há locais que as urnas são levadas de barco.
Como nem tudo é perfeito, o voto obrigatório produz fenômenos tragicômicos como uma mulher querendo saber o número do Lula na eleição para prefeito de 2004 e outro dizendo que queria votar no candidato X, mas como não lembrou o número do distinto, votou no Y mesmo e está tudo certo.

domingo, 31 de agosto de 2008

Coligações


Em todo ano eleitoral sabemos que existem coligações estranhas de partidos. Mesmo assim, quando elas aparecem, não nos deixam de causar perplexidade.
Nem foi preciso ir muito longe para encontrar uma delas. Estampada em um adesivo no vidro traseiro de um automóvel que circulava aqui na Bélgica, estava anunciada a coligação para a prefeitura de uma cidade vizinha:
DEM, PP, PMDB, PSL, PR, PRTB, PTN, PHS, PSB, PMN, PDT, PTB e PCdoB.
Devem existir inúmeros casos assim nos mais de cinco mil municípios do país. Casos que dão sustentação à tese de que o debate entre direita e esquerda está ultrapassado.
No resto do mundo, porém, países como os EUA, a França, a Itália e a Espanha nos mostram outra realidade. A de que o debate não está ultrapassado, nós é que não temos maturidade para participar dele.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Primeira página


Um candidato a presidente discursar para 200 mil pessoas é notícia.
Se o homem é candidato a presidente dos EUA e o discurso foi em Berlim, isso é primeira página.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Determine o x

Uma regra de três para passar o tempo:
O tempo gasto na mídia sobre o caso da tapioca está para R$ 8, assim como x está para os R$ 3,2 bi do caso Dantas. Determine o x.

sábado, 28 de junho de 2008

Achei foi pouco


Meus amigos provocadores vieram com essa para mim nessa semana:
— E aí, que achou do aumento do Bolsa Família em pleno ano eleitoral ?
— Achei foi pouco.
— Como assim pouco ? Foi acima da inflação.
— Depende para qual parte da inflação você olha. Para essa faixa de renda, a inflação é bem maior, principalmente por causa dos alimentos. Como disse, achei pouco.

Ainda no mesmo assunto, a manchete principal de O Globo de hoje é digna de prêmio:
Fome atinge maioria dos que têm Bolsa Família

Quer dizer que mesmo com essa verdadeira fortuna mensal de R$ 172 (valor máximo) para uma família de cinco filhos, os beneficiários ainda passam fome ?

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Ano I

O blog completa hoje um ano de vida. Apesar da recente estiagem, o ano fechou com uma média de mais ou menos um post a cada cinco dias. Para as minhas pretensões, está bem razoável.
O assunto do terceiro mandato anda meio em baixa e a última referência que li sobre o assunto foi do ex-governador Moreira Franco. Embora, convenhamos, unir o PMDB ? There is no such thing, diriam os gringos.
Em baixa mesmo anda a oposição, coitada. Eu fiquei com um pouco de dó, mas já passou. Sabe como é, além de todas as notícias positivas, eles tiveram que agüentar, num curto espaço de tempo, o grau de investimento e a surra dada pela Dilma quando compareceu à Comissão de Infra-Estrutura do Senado. Aliás, defendo desde já que, caso venha a ser candidata à presidente, a ministra deve enviar uma carta de agradecimento aos companheiros Álvaro Dias e José Agripino Maia pelo apoio.
Outra baixa, desde vez no time, foi a saída de Marina Silva. Ela realizou o sonho de muitos trabalhadores: mandou o chefe às favas. É claro que, pensando de forma bem reles, é fácil pedir demissão e voltar para o salário de senadora. Mas, é bom saber que existem pessoas que não abaixam a cabeça, nem para o mais popular dos chefes. É, no mínimo, inspirador.